Integrante de facção criminosa detalha à Justiça esquema que afastou prefeito de Cabedelo

  • 15/04/2026
(Foto: Reprodução)
Conversa Política: prefeito eleito de Cabedelo (PB) é afastado após operação da PF Identificada como chefe do núcleo de lavagem de dinheiro do Comando Vermelho na Paraíba, Ariadna Thalia, presa em dezembro do ano passado, prestou depoimento à Justiça após a prisão e detalhou como o esquema de contratação de empresas terceirizadas pela Prefeitura de Cabedelo acontecia em conjunto com a organização criminosa na qual fazia parte. O prefeito Edvaldo Neto (Avante), susposto integrante nesse esquema, foi afastado do cargo após uma operação da Polícia Federal na terça-feira (14). ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 PB no WhatsApp Os depoimentos de Adriadna foram obtidos pelo g1 nesta terça-feira (14) por meio do documento de autorização da operação que apura o desvio de R$ 270 milhões em recursos públicos a partir da fraude na contratação dessas empresas terceirizadas e da inclusão de pessoas ligadas com a facção criminosa na máquina pública municipal. A autorização é do desembargador Ricardo Vital de Almeida, do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB). O principal alvo da operação é o prefeito afastado, Edvaldo Neto. Além dele, a operação mirou outras 12 pessoas, incluindo familiares e pessoas ligadas à sua gestão. Entre eles, a atual secretária de Administração, Josenilda Batista dos Santos, também está na lista, ela é apontada como braço operacional interno da facção; recebia indicações da facção e atuava para fraudar licitações e contratar via terceirizadas. Também é alvo o ex-prefeito Vitor Hugo, apontado como articulador inicial do esquema, responsável por firmar o pacto com a facção e estruturar o modelo do esquema. No depoimento citado pelo desembargador, Ariadna Thalia, conhecida como 'Arroto de Urubu', descreve que fazia parte da facção “Tropa do Amigão”, o braço do Comando Vermelho em Cabedelo, desde a adolescência e tinha conhecimento interno do funcionamento do grupo. A partir dessa posição, ela diz ter sido, inclusive, contratada pela empresa Lemon, dentro do esquema, após ter vencido uma licitação com a prefeitura. Segundo a investigação. a Lemon era utilizada para desvio de verbas e contratação de indicados da facção. "Sua contratação pela empresa Lemon decorreu de um acordo direto entre a facção e a gestão municipal, funcionando como uma ‘troca’ pelo domínio territorial em Cabedelo” , diz trecho de parte da representação do Ministério Público e Polícia Federal à Justiça. Ela relata que “as lideranças da facção determinavam quais indivíduos deveriam ser contratados” e enviavam os nomes a um intermediário, que “articulava as nomeações diretamente com o então prefeito Vitor Hugo”, sendo que, após o aval, “os currículos eram entregues nas mãos de Nilda (Josenilda Batista, também alvo da operação) que realizava a contratação imediata” . Ariadna é apontada como chefe do núcleo de lavagem de dinheiro da facção criminosa Polícia Civil LEIA TAMBÉM Veja quem é quem no esquema suspeito de desviar mais de R$ 200 milhões De acordo com a decisão do magistrado, Josenilda, que é secretária de administração de Cabedelo e também foi afastada após a operação, foi apontada como sendo supostamente responsável por receber as indicações da facção, operacionalizar contratações por meio da empresa Lemon e atuar diretamente na condução de processos licitatórios, inclusive com desclassificação de concorrentes para favorecer o grupo. Sobre o desenrolar do esquema ao longo do tempo, Ariadna disse que, após uma operação policial, houve mudança na forma de pagamento. Ela afirmou que "a recompensa passaria a ser feita por meio de dinheiro em espécie e através de uma 'folha paralela', operacionalizada pela própria empresa Lemon". Ainda de acordo com o relato, "as pessoas que permaneceram contratadas tiveram seus salários aumentados para compensar a facção, enquanto as demitidas recebiam valores por fora". O documento não informa uma data em que Ariadna concedeu o depoimento. No entanto, o magistrado que autorizou a operação relata que as informações dela foram fundamentais nas investigações. "A relação entre os fatos e o possível envolvimento dos suspeitos, que atuariam de forma organizada na prática dos ilícitos, ganhou contornos de clareza processual a partir de elementos indiciários consistentes, como o depoimento de Ariadna Thalia Cordeiro Barbosa", afirmou o desembargador; Além do depoimento de Ariadna, outros indícios são citados pelo desembargador na decisão, como relatórios financeiros, documentos de pregões eletrônicos, parecer da Controladoria Geral do Município, contratos e aditivos de licitações, informações da inteligência da Polícia Federal e do Ministério Público e até elementos visuais, como uma foto de uma reunião entre agentes do suposto esquema. O esquema, segundo a Justiça Edvaldo Neto (Avante) Reprodução/TV Cabo Branco De acordo com as investigações, os recursos públicos destinados ao pagamento dos postos de trabalho terceirizados voltavam aos líderes da organização e aos agentes politicos na forma de propina. Até mesmo uma "folha de pagamento paralela" chegou a ser implantada. Segundo o documento, o modelo operava da seguinte forma: A Prefeitura de Cabedelo realizava contratações de serviços terceirizados, como de limpeza em prédios e domicílios, por meio de licitações que são suspeitas de serem fraudadas, ou direcionadas, para garantir que determinadas empresas, como a Lemon, fossem sempre vencedoras. Isso ocorria, por exemplo, com a desclassificação deliberada de empresas concorrentes nessas contratações, mesmo quando apresentavam propostas melhores, mediante decisões administrativas e pareceres jurídicos que davam aparência de legalidade ao processo licitatório. Uma vez que os contratos eram fechados, essas empresas terceirizadas funcionariam como um mecanismo de contratação de pessoas indicadas por uma facção criminosa, identificada como a “Tropa do Amigão”, um braço do Comando Vermelho, na Paraíba. As indicações, segundo a investigação, partiam da liderança do grupo criminoso e eram operacionalizadas dentro da administração pública por intermediários e servidores, que recebiam currículos e efetivavam contratações dentro da estrutura das empresas terceirizadas. Na prática, isso teria criado a chamada "folha de pagamento paralela", na qual recursos públicos pagos às empresas terceirizadas eram desviados, total ou parcialmente, para financiar a organização criminosa e pagar propinas a agentes públicos. O dinheiro circulava por meio de salários inflados desses funcionários terceirizados contratados, pagamentos em espécie e uso de contas de terceiros para dificultar o rastreamento dessas quantias, caracterizando indícios de lavagem de dinheiro, também conforme a decisão. Com isso, a estrutura formal da administração municipal, conforme palavras do desembargador, “teria sido convertida em um instrumento logístico e financeiro do crime organizado”. O que dizem os investigados A defesa de Edvaldo Neto informou por meio de nota que "o prefeito jamais manteve qualquer vínculo ou relação com facção criminosa, sendo tal imputação absolutamente inverídica e incompatível com sua trajetória pública". Em nota, a defesa do prefeito ressaltou, ainda, que a medida é "de natureza provisória" e "que não implica qualquer juízo definitivo de culpa". Por meio de nota, o ex-prefeito Vitor Hugo disse que "não conhece" Ariadna, "nunca viu, nunca trocou uma mensagem" e que ela "foi uma indicação" de concorrentes políticos "para fazer uma grande armação". Ele afirmou ainda que é "vítima de uma perseguição política". Rougger Guerra, secretário da Prefeitura de João Pessoa, afirmou que foi surpreendido com a ação da Polícia Federal. “Esclareço, de forma categórica, que não tenho qualquer envolvimento com os fatos investigados, tampouco mantive qualquer relação com as situações apuradas”, disse. Ele afirmou ainda que entregou o cargo na administração da capital. Cynthia Cordeiro, sogra do prefeito afastado e que ocupava uma secretaria na administração municipal, foi procurada e também não respondeu. Em nota, a Lemon afirma que pauta suas atividades "na ética, na qualidade de seus serviços e no respeito às normas, sobretudo aos princípios que regem a administração pública" e que antes de qualquer medida judicial "colocou-se à disposição para colaborar com as investigações". Em nota divulgada nas redes sociais, a mulher disse que atua como advogada na qualidade da Lemon e "sempre pautou todas as ações com absoluta retidão e lisura, exercendo o ofício com rigor técnico e respeitando as leis". Disse ainda que "acredita na Justiça, estando tranquila e confiante na apuração dos fatos e que tudo será esclarecido à luz do direito". As defesas dos demais alvos da operação não foram localizadas. A operação Dinheiro e outros objetos foram apreendidos durante operação da Polícia Federal em Cabedelo Divulgação/Polícia Federal Durante a operação, foram cumpridos 21 mandados de busca e apreensão. Um dos endereços foi um apartamento do prefeito Edvaldo Neto, localizado em Intermares. A Polícia Federal ainda não detalhou material apreendido. As diligências são executadas em regime de força-tarefa entre a Polícia Federal, o Ministério Público da Paraíba, por intermédio do Gaeco, e a Controladoria-Geral da União. A Justiça também proibiu o acesso às dependências da prefeitura das seguintes pessoas: Edvaldo Neto, Vitor Hugo Peixoto Castelliano, Rougger Xavier Guerra Junior, Diego Carvalho Martins, Cynthia Denize Silva Cordeiro, Tanison da Silva Santos e Cláudio Fernandes de Lima Monteiro. Vídeos mais assistidos do g1 Paraíba

FONTE: https://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2026/04/15/integrante-de-faccao-criminosa-detalha-a-justica-esquema-que-afastou-prefeito-de-cabedelo.ghtml


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